Uma sociedade que se reorganiza a partir da biopolítica, em escala global, usa as redes digitais como plataformas de articulação de consciências planetárias.
O avatar, a mobilidade em todas as suas formas, voar e teleportar expressam ferramentas de design mas também possibilidades criativas, trilhas próprias no intangível mundo complexo que em última análise exige de cada um de nós a construção de um mapa pessoal.
Os mapas de conhecimento pessoal, ou trilhas, começam a se consolidar numa primeira onda, no Centro Cultural Bradesco, como exercícios de liberdade e inovação.
Fechado um primeiro trimestre de experimentações ao vivo, transmissões heróicas do telecentro da plataforma de trem de São Carlos, reencenações no Second Life da peça “Bate-Papo” com exibição ao vivo no Colégio São Domingos entre outros momentos de reflexão, análise e crítica, em mais de 50 oficinas, o sentimento é de enorme surpresa.
Cresce a comunidade de avatares registrados nas trilhas do Centro Cultural Bradesco, uma base de interessados, humanos, preparados para se fazer rebentar num 2008 de construção coletiva de uma civilização biodigital.
Articuladas em três esferas, de economia e negócios, sustentabilidade e artes, as trilhas do Centro Cultural Bradesco, são um ninho de educação, tecnologia e cultura.
A edificação virtual no Second Life gira envolta pelo mapa do nosso planeta. Ao longo do primeiro trimestre de atividades, o Centro Cultural já floresce com uma teia de conteúdos, registros, vivências e trocas.
Continuaremos vivos na medida da vivacidade das redes que formamos ao tecer, cada um de nós, sua própria trilha de experiências, conhecimento e cultura.
Essa cultura biodigital reflete nossa própria capacidade de expressão e conexão por blogs, celulares, internet, IPTV, Second Life e papel em benefício tanto individual quanto coletivo, respeitando as urgências sócio-ambientais e da responsabilidade social e empresarial.
A Rede do Planeta é uma entidade que se integra numa esfera pública e civilizatória biodigital. Plataforma, ferramenta ou extensão, trata-se de uma obra coletiva com enorme potencial para forjar cada vez mais e melhores meios de convivência saudável, longeva, multiforme e criativa.
Nossos Agradecimentos especiais às dezenas de artistas, professores e consultores, estudantes e colaboradores que tornaram realidade o sonho de uma vida digital inteligente cujo Centro está em toda a parte.
Desejamos à comunidade que já se formou em torno, dentro e através do Centro Cultural Bradesco um Feliz 2008!
Gilson Schwartz
Curador
Centro Cultural Bradesco
Para o professor Gilson Schwartz, da Universidade de São Paulo (USP), Second Life é “uma etapa importante da convergência entre o lúdico e o lúcido”. Segundo ele, nada no futuro será apenas virtual ou analógico, e destaca que “cada sociedade ou organização precisa enfrentar o desafio de criar, sustentar e adaptar o próprio ecossistema empreendedor, sob pena de se ossificar em burocracias ora corruptas, ora medíocres”.
Gilson Schwartz é graduado em Economia e em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo, e mestre e doutor em Ciência Econômica pela Universidade Estadual de Campinas. Desde 2005, é professor do Departamento de Cinema, Rádio e TV da Escola de Comunicações e Artes da USP. Atua desde 1994 como consultor de instituições financeiras como BankBoston, BID, BNDES, BNB, CEF e Banco do Brasil. Atuou também como analista econômico e editorialista do jornal Folha de S. Paulo por 23 anos (1983-2006) e Época Negócios (2007). Confira a entrevista concedida à revista digital Instituto Humanitas Unisinos, IHU On-Line, publicada originalmente em 02 de julho de 2007:
IHU On-Line - O Second Life poderá contribuir para criar uma nova era na Educação?
Gilson Schwartz - Creio que essa nova era começou, antes do Second Life, com a impressionante explosão da cultura “gamer”, da proliferação dos jogos multi-usuários online em tempo real (MMORPGs ) aos inúmeros jogos de simulação, inclusive de espaços urbanos e desafios ambientais. Ou seja, há uns 10 anos a gente observa uma impressionante pujança do universo lúdico, que obriga a redefinições no mundo do entretenimento, da educação e da gestão das organizações. O Second Life é uma etapa importante da convergência entre o lúdico e o lúcido, uma alter-realidade ou metaverso que poderíamos integrar com o neologismo “ludicidez”, mistura de lucidez com abertura para o lúdico da vida. De outro lado, processos educacionais são por definição longos, demoram para fazer efeito, para serem alterados e reformados. Em alguns momentos, concentra-se uma energia transformadora. Foi assim com Paulo Freire e tem sido assim com a internet. Eu diria que a rede cria uma nova era para a educação e o Second Life faz a ponte entre internet e jogos capaz de estimular o aprendizado como disposição a superar todas as fronteiras.
IHU On-Line - A economia do futuro será virtual? As novas oportunidades de negócios estão se concentrando na internet e em especial no Second Life?
Gilson Schwartz - A economia do futuro é a economia da complexidade, à qual se responde com criatividade, inovação, empreendedorismo, senso crítico e abertura para o constante aprendizado de novas tecnologias e ferramentas. Mas nada no futuro será apenas virtual ou apenas analógico. Também nesse caso as convergências, os hibridismos e nomadismos tendem a predominar, compondo uma diversidade que evolui em meio à incerteza, na qual nenhum controle total é mais possível. Os ecossistemas de negócios tendem cada vez mais a combinar o digital e o analógico, o simples e o complexo, o proprietário e o aberto. Cada sociedade ou organização precisa enfrentar o desafio de criar, sustentar e adaptar o próprio ecossistema empreendedor, sob pena de se ossificar em burocracias ora corruptas, ora medíocres. As novas oportunidades de negócios estão em todos os setores, mas, sem dúvida, a inovação ocorre sempre que uma rede digital está “por perto”, como ator muito especial na configuração de novas formas de produção e de vida.
IHU On-Line - Para as empresas que anunciam no Second Life, os resultados desses negócios virtuais já são reais? Como está a publicidade no Second Life?
Gilson Schwartz - Ainda é um momento de aprendizado. Creio que o desafio está em fazer publicidade de outra forma, pensando o consumidor e o mercado não mais como mecanismos frios e impessoais, imposições macroeconômicas e mecanicistas, e sim como atores vivos, cuja racionalidade é imersiva e interativa, com a participação na produção ampliando a própria percepção que cada consumidor tem da interface. O mais interessante, nessa primeira etapa do Second Life como “sucesso”, é o valor que tem gerado para as empresas, não nesse espaço, mas no volume de mídia tradicional gerado a partir do anúncio da presença de uma empresa nele. Ou seja, há uma expectativa de inovação tão grande que a simples decisão de entrar já dá notícia e, portanto, valoriza a imagem da empresa. É um fenômeno parecido ao do iPhone - as ações da empresa que produzem o produto dispararam apenas pelo anúncio e pela imagem. Aos poucos, no entanto, assim como ocorreu com a internet 2D, será mais difícil obter essa mídia fácil e a genialidade dos produtores, a criatividade das empresas e a “ludicidez” dos consumidores definirão novas possibilidades de geração de valor, imagem e conforto.
IHU On-Line - Como definir a sociedade virtual do Second Life, onde as pessoas se teletransportam e voam na hora em que querem? Que tipo de convívio social se dá nessas circunstâncias?
Gilson Schwartz - É algo que estamos começando a estudar. A USP, por meio da Cidade do Conhecimento , está em parceria com IG e Kaizen, promovendo a criação e desenvolvimento de uma área de estudos e ações (sócio-ambientais e empreendedoras) que terá o caráter de “pro bono”, ou seja, sem fins lucrativos, em benefício do interesse comum. Alguns grupos de pesquisa já nos procuraram com propostas de estudo tanto de relações sociais quanto de novas abordagens político-pedagógicas. A definição corrente é a de um universo que se sobrepõe virtualmente ao da vida real, o chamado metaverso. Mas o fenômeno é mais amplo e profundo: estamos tratando da visualização de uma metagestão do conhecimento.
IHU On-Line - As tecnologias digitais podem proporcionar uma evolução na sociedade?
Gilson Schwartz - Creio que é o contrário, ou seja, é a evolução da sociedade que tem permitido saltos na pesquisa, desenvolvimento e inovação com tecnologias digitais. É em razão do capitalismo, dos governos e das organizações da sociedade civil que configuram um capitalismo 3.0 que está surgindo a web 2.0, do qual o Second Life é um vestíbulo e, ao mesmo tempo, um indício. Mais que a tecnologia, estamos diante da emergência, no século XXI, de uma nova cultura digital pautada pela consciência de uma web semântica, em que a navegação, por mecanismos de busca como o Google, é apenas a ponta do iceberg. “Voar” ou ser “teletransportado” no Second Life não é um artefato tecnológico, e sim uma expressão do desejo dos usuários ao qual a tecnologia se curvou (essa é a natureza da palavra “design”).
IHU On-Line - Em que consiste seu projeto que pretende disponibilizar cerca de 200 cursos no Second Life? Aulas no universo virtual funcionam? Como se dará esse processo no Second Life?
Gilson Schwartz - Estamos organizando uma espécie de “república da boa fé” ou área “pro bono” em parceria da Cidade do Conhecimento da USP com o IG e Kaizen, que respondem pela gestão do Second Life no Brasil. Na prática, será uma grande coalizão com escolas, instituições de pesquisa e entidades do terceiro setor, que receberão da USP, do IG e demais parceiros, uma série de benefícios para desenvolverem ações de conteúdo educacional, cultural, social, ambiental e tecnológico. Serão muito mais que 200 cursos, muitos oferecidos em parceria por instituições de lugares diferentes, sobretudo de países diferentes, em salas de aula online freqüentadas por alunos-avatares, que jamais poderiam sentar “lado a lado” no mundo real. O potencial de descoberta científica e design social é fabuloso: seus riscos são ainda pouco debatidos e a governança torna-se ainda mais complexa do que já é na internet. Ao mesmo tempo, já temos 10 anos de internet, portanto temos muito aprendizado sobre esses temas perenes, que são a segurança, a confiabilidade, a certificação digital, a criminalidade e a pornografia, em todas as suas inesgotáveis perversões. Caberá à sociedade brasileira (e nós da área educacional, científica e cultural temos enorme responsabilidade nisso) desenhar (literalmente!) não apenas os avatares, os personagens, mas a própria rede que, como persona intangível, acolhe nossas angústias e abre caminhos que trilhamos com a mente, o coração e a ação. O Second Life atualiza esses desafios e oferece novas respostas. Mas cabe à sociedade fazer as perguntas certas.
(A Estação das Docas também reapresentou aos paraenses e turistas outro patrimônio histórico e cultural: as ruínas do Forte de São Pedro Nolasco, onde foi construído um Anfiteatro. Originalmente uma construção de defesa erguida em 1665, o Forte foi destruído após o Movimento da Cabanagem, em 1825, e revitalizado para a inauguração da Estação, passando a servir como palco de apresentações musicais, performances e teatro.)
Myriam Bahia Lopes, professora-adjunta da Escola de Arquitetura da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), deu uma oficina no Centro Cultural Bradesco, na qual discutiu a dissolução da paisagem nas intervenções urganas do século 21. Pouco antes de entrar no ar, pelo Skype, falando diretamente de Belo Horizonte ao Centro Cultural Bradesco, Myriam apontou intervenções, mencionando exemplos como as docas em Belém. A seguir, trechos da entrevista.
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Centro Cultural Bradesco: Desde quando você trabalha com a história da cidade?
Myriam Bahia Lopes: Comecei em 1980 e, desde 2005, sou professora-adjunta no Departamento de Análise Crítica e Histórica da Arquitetura e do Urbanismo (ACR) na Escola de Arquitetura da Universidade Federal de Minas Gerais.
CCB: Quando a história da paisagem adquiriu importância?
Myriam Bahia Lopes: Isso virou importante no século 19. Essa época é um marco na criação de espaços cuja função é serem repositários da memória, seja em forma de documentos, livros, a biblioteca nacional ou os jardins botânicos.
CCB: O jardim botânico parisiense pode ser citado como exemplo?
Myriam Bahia Lopes: Na época da Revolução Francesa, no século 18, a única instituição do rei que não foi atacada pelos revolucionários foi o jardim botânico. É importante lembrar que no século 19 os jardins botânicos se consolidam como instituição.
CCB: Qual é a relação que se estabelece entre presente e passado?
Myriam Bahia Lopes: A história funciona como política e sempre costuma fazer tábula rasa do passado. Os governos sempre querem zerar como se estivessem fazendo tudo a partir de uma página em branco. Todo governo quer colocar um marco zero.
CCB: Quais são os traumas que isso gera?
Myriam Bahia Lopes: Quando se faz uma intervenção no espaço, aniquilam-se os testemunhos.
CCB: Quais são os exemplos no Brasil?
Myriam Bahia Lopes: O aeroporto internacional de Belo Horizonte, o Tancredo Neves, foi construído em 1983. Não se fez nenhuma prospecção. Trata-se de um sítio arqueológico. A área toda é riquíssima. Ao lado foi descoberta a Luzia, portanto, é um local com vários testemunhos arqueológicos.
CCB: Os ambientalistas fizeram algo na época?
Myriam Bahia Lopes: Simplesmente aterrou-se o lugar. Não adiantou que ambientalistas alertassem. E o aeroporto ficou anos subutilizado.
CCB: Isso é mais um exemplo de como o presente lida com o passado?
Myriam Bahia Lopes: É uma ilustração de como o presente é prepotente. De como lidamos mal com o passado ao construir paisagens no presente.
CCB: No que consiste o seu trabalho de pesquisa?
Myriam Bahia Lopes: Uma das minhas pesquisas trabalha com a questão da transformação da paisagem. A forma de perceber o espaço muda ao longo do tempo. Depois do trem, do avião e do Google, as pessoas não vêem mais da mesma forma.
É preciso buscar fatores técnicos, estéticos e políticos que mostram essas diferentes formas de perceber e representar o espaço e a paisagem no planeta.
CCB: Que espaços da cidade, além do jardim botânico, permitem esse jogo de tensões entre o presente e o passado?
Myriam Bahia Lopes: Em Belém , houve uma série de intervenções portuárias. O espaço das docas, de armazéns fechados e o portal Lusitânia. O pretexto do governo é atrair turismo, reconquistar o acesso ao rio, que se tinha perdido. Houve uma
getrificação, quando se expulsa a população em nome do turismo. Criou-se todo um cenário em que as pessoas da região não se sentem representadas. É algo que é feito para fora. Isso é extremamente equivocado.
Com essa indagação, João Meirelles, do Instituto Peabriu, faz uma oficina no Centro Cultural Bradesco no dia 10, às 16h.
A idéia é provocar até o mais radical carnívoro em todo o território do país: Meirelles vai fazer uma análise, revelando os níveis de pecuarização da Amazônia.
Ele não poupa esforços, quando se trata de defender a região. Em carta aberta aos libaneses, ele já argumentou que a pecuária bovina corresponde a 4/5 do desmatamento da Amazônia.
Em dezembro o Banco do Planeta abre as várias redes de acesso ao Centro Cultural Bradesco para discutir um tema essencial da nossa época: a sustentabilidade sócio-ambiental.
As atividades começam pelo acompanhamento e transmissão ao vivo para o Auditório no Second Life e na rádio online dos debates e palestras do I Forum Internacional de Economia Criativa, uma iniciativa que conta com o patrocínio do Sebrae e do BNDES, do British Council e outras entidades e empresas mobilizadas pela Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo.
Leia a seguir entrevista de Ricardo Abramovay, um dos convidados do Centro Cultural Bradesco em dezembro, ao “Globo Rural“, sobre a importância da ruralidade como valor na sociedade contemporânea e internacionalizada.
A ruralidade é um valor ao qual o mundo contemporâneo atribui crescente importância, por seu significado na preservação da biodiversidade e no estilo de vida cada vez mais procurado pelos habitantes dos grandes centros. Ricardo Abramovay analisa essa tendência na condição de professor titular de Economia e do Programa de Ciência Ambiental, da Universidade de Sâo Paulo.
